Atins em Barreirinhas, atrai brasileiros atrás de paisagens intocadas

Quem deseja conhecer o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, no litoral do estado do Maranhão, precisa escolher três cidades bases para se hospedar: Barreirinhas, Santo Amaro e Atins. E é nesta última que muitos viajantes brasileiros têm escolhido ficar, justamente por suas paisagens quase intocadas.

 

Considerada uma Jericoacoara antiga, o pequeno vilarejo possui praias e lagoas paradisíacas — a mais famosa é a chamada Tropical. No passado, Atins era reduto de muitos estrangeiros que vinham para o país explorar lugares inóspitos.

Foi o caso do alemão Peter Nöldner, gerente da pousada Casa Acqua Marina e morador do local há quase 20 anos. Ele trocou o clima gelado de Berlim pelas altas temperaturas do Nordeste. “Me apaixonei pelo povo brasileiro e pela natureza”, diz.

 

Entardecer em Atins, MaranhãoImagem: Priscila Carvalho/UOL

 

Assim como ele, outros gringos se mudavam para a região ou se hospedavam por longos períodos devido ao baixo custo de vida, se comparado à Europa ou Estados Unidos. “A maioria que visitava Atins era os franceses e alguns brasileiros alternativos e mochileiros”, conta o alemão.

 

Mas essa realidade mudou, segundo Peter.

 

Com a pandemia, os turistas que mais visitam a vila no momento são os brasileiros, de classe média e ricos”.

 

Henrique Sampaio, dono da pousada Rico Atins há dois anos, concorda. O empresário conta que no passado quem desbravava os Lençóis eram os europeus. “Eles vinham visitar Jericoacoara e começaram a desbravar Barra Grande, Delta do Parnaíba e Tutóia. Daí a Rota das Emoções”, relembra.

 

Antigamente, quem visitava o vilarejo se hospedava na casa de pescadores e, com o passar dos anos, as acomodações foram se modernizando.

 

Antes, pela dificuldade de acesso, o turismo era sazonal: julho, agosto, setembro e outubro. Trabalhávamos cinco meses e ficávamos sete meses parados”

Henrique acrescenta que os próprios nordestinos começaram a procurar mais pela vila. “A pandemia mesclou um pouco isso. Recebemos turistas do Parnaíba e tivemos uma ocupação de 45%. Agora, tem uma pequena minoria de estrangeiros. Para nós é muito significativo”, ressalta a Nossa.

 

Como chegar a Atins

Por ter uma logística difícil, não é todo mundo que coloca Atins no roteiro ao visitar os Lençóis Maranhenses. Para chegar até o local, é necessário ir de barco ou com veículos 4×4.

 

Quem opta ir direto da capital São Luís (MA) — essa é uma das opções mais cansativas — pode ir com um carro privativo até o município de Barreirinhas e de lá pegar outro veículo por uma estrada de terra. Todo o trajeto pode levar de seis a sete horas.

Já para quem está hospedado em Barreirinhas e quer chegar até lá, o jeito mais fácil é por meio do rio Preguiças. O viajante pode optar ir de voadeira (nome da embarcação) conhecendo algumas atrações turísticas, que leva cerca de quatro horas ou ir direto, gastando aproximadamente uma hora.

 

Ao chegar no vilarejo, o turista ainda precisará de um carro da pousada ou outro veículo para levar até a hospedagem, já que muitas delas são mais afastadas. Além disso, sem uma carona é quase impossível não se cansar, já que toda Atins é composta por areia fofa, dificultando a locomoção com malas de carrinho.

 

Com conforto, mas sem luxo

Para quem deseja um lugar com muitos resorts e hotéis de luxo, Atins dificilmente responderá a essa expectativa. Isso porque, as próprias pousadas do vilarejo carecem de infraestrutura, se comparadas às outras em destinos muito procurados por viajantes. Portanto, vale procurar bem nos sites de reserva antes de fechar com a primeira.

Algumas não têm ar condicionado, tampouco chuveiro com água quente, o que pode ser dispensável diante do sol e calor de 35 graus ou mais todos os dias. Por causa da oscilação de energia frequente na região, muitos estabelecimentos disponibilizam apenas ventiladores.

 

E mesmo não tendo tantos recursos como outras cidades turísticas, há quem diga que esse é o diferencial do lugar. A gestora de projetos Agatha Reis, 33, não deixou de incluí-lo no roteiro durante sua estadia nos Lençóis Maranhenses. Ela visitou o vilarejo recentemente e disse que era exatamente o que procurava: fugir da cidade e ficar mais próxima da natureza.

 

Realmente me surpreendi com a vibe de Atins, pois é extremamente ‘good vibes’, acolhedor, pequeno e, ao mesmo tempo, com muitos turistas internacionais. Fiquei surpresa com a diversidade”, conta Agatha.

 

Se alguns hotéis não oferecem um luxo extremo, já os restaurantes podem disponibilizar um cardápio exemplar e experiências únicas ao viajante. Muitos locais oferecem comidas típicas do nordeste e um dos pratos mais pedidos era a carne de sol e outros à base de peixe e camarão.

 

A juíza Ana Lúcia Freitas, 52, também visitou o local há pouco mais de um mês e conta que o vilarejo superou suas expectativas.

 

Apesar de ser uma pequena vila, só de areia (e areião mesmo), tem um clima mais ‘sofisticado’, com restaurantes modernos, bares com DJ, clima de praia badalada, mas com o olhar para a natureza e o esporte”, diz.

Ela ressalta ainda que não achou um lugar roots e cheio perrengues. Muito pelo contrário. “Obviamente não estamos falando de uma cidade de uma cidade de fácil caminhada e acesso. Mas tem quadritaxi, para os momentos cansativos, uma ou outra carona nas jardineiras do passeio. Então dá para se virar na caminhada, que não é a das mais fáceis”, brinca.

 

Outro ponto é a internet. O lugar serve realmente para o turista se desconectar com o resto do mundo. O sinal de wifi costuma pegar bem na maioria das pousadas, mas somente uma única operadora funciona em alguns pontos da vila, mas não todos. “A gente não tinha internet, era via rádio. Tivemos de uns três anos para cá. Antes era uma pequena antena rural”, conta Henrique.

Além de dunas e belas lagoas, Atins reserva muitas praias, o que atraia ainda mais o viajante. Embora o mar não seja de água cristalina, é um paraíso para quem quer aprender ou já pratica kitesurf.

 

O vilarejo fica disputado por brasileiros e estrangeiros que procuram, principalmente entre os meses de julho e dezembro, hospedagem para fazer o esporte aquático.

 

Há turistas que vão para ficar apenas algumas semanas e se rendem às aulas, clima do lugar e estendem ainda mais sua permanência por meses.

 

E para quem quer aprender a modalidade e não tem noção nenhuma de como manusear as pranchas, é preciso aulas de até dez horas, incluindo instruções teóricas e práticas.

 

Mas prepare o bolso. Assim como outras atrações mais caras no vilarejo, as aulas de kitesurf podem ser bem salgadas: pacotes custam a partir de R$ 1700. Como há poucas escolas no local, não será tão fácil pechinchar ou pedir descontos.

Quem visita a pequena vila pode achar que o local está preservando suas raízes do passado, por isso o estilo é considerado rústico. Não é à toa que os próprios donos de pousadas e moradores comparam com Jericoacoara de 20 anos atrás.

 

Mas não é bem assim. O dono da pousada Rico Atins conta que a vila não era nem de perto o que é hoje. O lugar era isolado, vivia somente da pesca e muitas famílias tinham dificuldade em conservar alimentos por causa da oferta escassa de energia elétrica.

 

Com o avanço do turismo foi possível transformar e melhorar aspectos socioeconômicos para toda população. “Atins de 20 anos atrás tinha seu charme, mas hoje você vê um nativo que não tinha energia para armazenar um alimento, porque não tinha geladeira, vivendo com um maior poder aquisitivo”, ressalta Henrique.

 

E foi por causa dos viajantes que o vilarejo se modernizou e continua preservando seu charme. Mas segundo Peter, a Atins que ele conheceu no passado, não existe mais. E mesmo dividindo opiniões, ele afirma que a vila ainda oferece uma calmaria, que dificilmente será encontrada em outra cidade nordestina.

 

A tranquilidade de Atins não tem preço (fora de temporada). O povo é muito receptivo e a natureza é única”.

Do UOL

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