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Opinião

Aymeê Rocha expõe fissuras dentro de igrejas evangélicas

Nem a declaração de Lula comparando o genocídio dos palestinos ao Holocausto nem a mobilização para o ato de Bolsonaro no domingo. O campo evangélico debateu exaustivamente na semana passada a faixa “Evangelho de Fariseus”, da cantora paraense Aymeê Rocha. Em uma semana, ela passou de 9.000 a quase 2 milhões de seguidores no Instagram ao participar do reality gospel O Dom.

O debate sobre “Evangelho de Fariseus” implodiu fronteiras no campo evangélico. Entre os que aplaudiram a música estavam a ex-ministra Damares Alves, que defendeu que meninas usam rosa e meninos, azul, a pastora Lanna Holder, líder de uma igreja para evangélicos LGBT, o pastor bolsonarista André Valadão e o assembleiano Nilson Gomes, perseguido por criticar a bolsonarização das igrejas.

Aymeê fez uma canção sobre o descaso das igrejas em relação a temas como enriquecimento de pastores, exploração sexual de crianças e destruição da Amazônia. Em um trecho, diz: “A Amazônia queima, uma criança morre, os animais se vão superaquecidos pelo ego dos irmãos”.

As principais críticas a “Evangelho de Fariseus” foram que ela defende pautas progressistas e expõe toda a comunidade evangélica sem distinção, fornecendo munição para aqueles que já nutrem antipatia pelos evangélicos atacarem sua fé.

Apesar disso, quase todos os evangélicos politicamente à esquerda que consultei estavam desconfiados, sem querer se manifestar sobre a música. “Só tem a bandeira do Brasil no Instagram dela”, me escreveu um, notando que há foto recente dela com o pastor Lucas Hayashi, da Zion Church, apoiador de primeira hora de Bolsonaro.

No dia da apresentação que mudou sua vida, Aymeê vestia uma bata com o desenho e as cores da bandeira do Brasil. “Graças a Deus ela estava com a bandeira na apresentação!”, analisou o pastor Kaká Menezes, da Rede Sustentabilidade. Para ele, muitos evangélicos se desarmaram para escutar a música por causa da bandeira.

Aymeê parece não estar preocupada com a repercussão. Ela escreveu, comentando sua música, que não faz “entretenimento gospel”: “Fui chamada para cantar o amor e a indignação de Cristo”. Muitos fieis concordam, entendendo que ela foi um instrumento de Deus para transmitir uma mensagem profética aos cristãos, criticando o interesse de igrejas por assuntos mundanos. E celebraram que a fusão entre MPB e gospel pode “furar a bolha” e levar o evangelho a audiências novas.

Apesar da exposição e da torcida, Aymeê não venceu o reality. E agora ela tem pela frente o desafio de resistir ao assédio de igrejas para incorporá-la ao establishment que sua música denunciou.

Juliano Spyer – Antropólogo, autor de “Povo de Deus” (Geração 2020), criador do Observatório Evangélico e sócio da consultoria Nosotros.

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