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Franz Beckenbauer, lenda do futebol alemão, morre aos 78 anos

O ex-jogador Franz Beckenbauer morreu neste domingo, 7, aos 78 anos, informou sua família à agência de notícias alemã DPA. Considerado o maior jogador de futebol da história da Alemanha, o “Kaiser” conquistou a Copa do Mundo de 1974 como atleta e a de 1990 como treinador. A causa da morte não foi divulgada.

Beckenbauer morreu três dias depois do brasileiro Mário Jorge Lobo Zagallo, a quem igualou como campeão mundial como jogador e técnico – o francês Didier Deschamps também alcançou o feito, em 1998 e 2018, respectivamente.

A saúde do “Kaiser” (“Imperador”, em alemão), como era conhecido, já vinha deteriorada havia algum tempo, segundo relatos de familiares e da imprensa do país. O ex-jogador nem sequer aparece em um documentário sobre sua vida, intitulado “Beckenbauer”, que começa a ser transmitido nesta segunda-feira, 8, pela emissora alemã ARD.

Sua última manifestação pública aconteceu antes da Copa do Mundo de 2022, quando ele disse que não poderia ir ao torneio por ter sofrido um “infarto ocular”, que havia tirado a visão de seu olho direito. Beckenbauer vivia recluso na Áustria com a família.

Amplamente reconhecido como um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, Beckenbauer começou a carreira como meio-campista, mas atingiu o auge jogando como líbero – um zagueiro que, quando o time tinha a bola, avançava para armar a equipe. Foi assim que ele conquistou a Copa do Mundo de 1974, disputada na Alemanha. Ele também disputou as Copas de 1966 e 1970 e venceu a Eurocopa de 1972, além da Copa de 1990 como treinador.

Pelo Bayern de Munique, o “Kaiser” também fez história ao comandar em campo o time tricampeão europeu de 1974, 1975 e 1976. Ele conquistou duas vezes a Bola de Ouro como melhor jogador da Europa, em 1972 e 1976, e terminou a carreira no New York Cosmos, dos Estados Unidos, onde foi tricampeão nacional e jogou ao lado de Pelé.

Beckenbauer, Pelé e Chinaglia juntos no Cosmos, em Nova York, para a temporada de 1977
Beckenbauer, Pelé e Chinaglia juntos no Cosmos, em Nova York, para a temporada de 1977

Beckenbauer na PLACAR

Uma das grandes lendas do nosso futebol, Franz Beckenbauer esteve diversas vezes nas páginas de PLACAR. Edição de de março de 1974, pouco antes do título mundial da Alemanha, o tratava como o príncipe do país. “O maior jogador da Alemanha Ocidental continua sendo o líbero Beckenbauer. Ele é o capitão, o líder, o homem que safa a onça na defesa e inicia todas as jogadas do ataque da seleção” escreveu o repórter Michel Laurance, à época.

Edição de 15 de março de 1974 tratava Beckenbauer como príncipe da Alemanha/PLACAR

Edição de 15 de março de 1974 tratava Beckenbauer como príncipe da Alemanha – PLACAR

A edição de maio de 1986 de PLACAR contou que passou não somente pelos pés – mas também pela mente – do Kaiser a construção da Alemanha (então Alemanha Ocidental) campeã mundial pela segunda vez na história, em 1974.

Após uma inesperada derrota para a Alemanha Oriental, em Hamburgo, no terceiro e último jogo da fase de grupos daquela Copa do Mundo, o Kaiser lançou ao técnico Helmut Schoen, um antigo militar, uma proposta um tanto quanto inesperada: uma “meia liberdade”, segundo palavras do próprio camisa 4.

Beckenbauer acreditava que o regime conservador de concentrações, a falta de liberdade para os atletas, longos períodos fechados refletia diretamente no desempenho dentro de campo. “O jogador de futebol, o atleta de um modo geral, não pode mais ficar enclausurado como antigamente durante todo o período de competições”, disse o Kaiser ao seu treinador.

A sugestão dada por ele foi de liberar os jogadores casados e solteiros mesmo às vésperas dos jogos decisivos. Ambos poderiam sair com familiares ou mesmo namoradas, mas teriam que cumprir horários. “Liberdade com responsabilidade é o que chamo de meia liberdade. Somos jogadores de futebol, mas somos, antes de tudo, seres humanos”.

 

O treinador concordou com relutância, mas acatou a sugestão do capitão. A tática funcionou: a Alemanha Ocidental embalou vitórias convincentes diante da Iugoslávia, Suécia e Polônia. Por fim, derrubou o Carrossel Holandês de Johann Cruyff; E Beckenbauer e Schoen seguraram juntos a taça de campeão mundial, erguendo-a a quatro mãos para os milhares de torcedores presentes ao estádio Olímpico de Munique.

Em 1999, PLACAR elegeu os 100 maiores craques do século XX e apontou Beckenbauer como o quinto colocado, atrás de Pelé, Maradona, Cruyff e Garrincha. O relato sobre o “Imperador do Futebol” destacava “o talento e a a liderança, dentro e fora de campo” do líbero alemão. Confira o texto, abaixo, na íntegra:

Capa da edição de PLACAR de novembro de 1999
Capa da edição de PLACAR de novembro de 1999

O imperador do futebol

O talento e a liderança do Kaiser Beckenbauer, dentro e fora do campo, foram responsáveis pela melhor fase da Alemanha no futebol mundial em todos os tempos

Ronaldo Nunes

Em plenos escombros de um país destruído pela Segunda Guerra Mundial nascia um homem que faria história, ajudaria a recuperar a auto-estima do povo e, de quebra, ainda seria proclamado Kaiser (imperador, em alemão). Tudo isso sem que fosse necessário qualquer movimento político ou militar. Franz Beckenbauer nasceu em meio ao que sobrou de um país arrasado. Com o pai aposentado devido aos ferimentos que teve na guerra, o garoto vivia em constante batalha familiar. O pai não queria que ele jogasse futebol com o único par de sapatos que tinha. Essa guerra o velho Beckenbauer gostou de perder.

Aos 14 anos, o pequeno Franz foi jogar no Bayern. Aos 19, já era titular do time profissional Aos 20, foi para a seleção e, aos 21, já seria um dos melhores de uma Copa do Mundo, a de 1966. Em 1970, marcou a história do futebol jogando uma semifinal de Copa e a prorrogação com um braço imobilizado devido a uma luxação na clavícula. Melhor jogador alemão de todos os tempos, foi eleito o melhor da Europa em 1972 e 1976. Aí foi jogar com Pelé no Cosmos de Nova York. Foi uma das poucas vezes que o Rei perdeu alguma eleição. O melhor jogador da temporada americana de 1977 foi Franz Beckenbauer.

Antes da aventura americana, o Kaiser havia mudado o destino do Bayern. Até ele se profissionalizar, o time de Munique era inexpressivo na Alemanha. Com o craque, o clube se tornou uma máquina de títulos. Foi também a oportunidade de mostrar mais uma virtude em um tempo em que jogador só sabia jogar bola: a de hábil homem de negócios. Desde 1970 recebia o maior salário do futebol alemão e, de 1974 a 1977, foi provavelmente o maior vencimento da Europa. Ele merecia.
Beckenbauer não se destacava apenas pelo futebol vigoroso, a habilidade ímpar para o desarme sem faltas, a saída de jogo com passes precisos, curtos ou longos. Chutava forte de longa distância. E impressionava também pelo porte, a cabeça erguida e as largas passadas.

Seu talento era tão vistoso que, antes de ser o Kaiser, a imprensa o chamava de Brasileiro da Baviera. Era um líder natural, capitão do Bayern desde os 22 anos e da Seleção por dez anos. Era influente também fora de campo e discutia tanto a escalação quanto o esquema tático com Helmut Schoen, seu técnico no clube e na Seleção. Esse poder ficou escancarado quando ele impôs a escalação de Overath no time alemão que venceu a Copa de 74 no lugar de Netze, acusado de mercenário. O título depois da vitória sobre a favorita Holanda permitiu que ele fosse o primeiro homem a levantar a taça Fifa, e sem choro: “Acho que o futebol não gosta que os seus eleitos comemorem com lágrimas uma vitória. Eu prefiro sorrir.”

Mas nem só de sorrisos viveu Beckenbauer. Ele teve uma grande decepção em 1977, quando o técnico Helmut Schoen lhe disse que estava velho para ir à Copa de 78. O Kaiser foi jogar três anos no Cosmos, mas voltou para a Alemanha em 1980 para atuar no Hamburgo, sonhando com a Copa de 82. Nova decepção. Depois de duas temporadas sem nem ser sondado para uma possível convocação, resolveu voltar para os EUA e encerrar a carreira.

Depois do sucesso dentro de campo, Beckenbauer estava decido a provar seu talento também do lado de fora. Tentou a carreira de técnico, assumiu a Seleção Alemã e, já em sua primeira Copa, a de 86, chegou ao vice-campeonato. Em 1990, conseguiu se tornar o primeiro europeu a ser campeão do mundo como jogador e como técnico. Deixou a Seleção para voltar ao querido Bayern, primeiro como técnico, depois como diretor, e, por fim, como presidente. A elegância e a liderança dos gramados adaptaram-se bem em ternos bem cortados e gravatas sóbrias. (Placar)>

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