Sampaoli diz que quer estar “à altura do Santos

O argentino Jorge Sampaoli, 58 anos, foi apresentado nesta terça-feira como técnico do Santos em evento no Museu do Futebol, em São Paulo. Com um contrato de dois anos, Sampaoli chega para substituir Cuca.

Em sua apresentação, Sampaoli citou ter recebido propostas de São Paulo, Flamengo e Cruzeiro em outros momentos da carreira, sem precisar quais. O técnico disse que espera estar à altura da história do Santos e que o clube tem a ver com sua ideia futebolística.

– Quando eu era criança e adolescente, era impossível ganhar de uma equipe brasileira no Brasil. Agora se equiparou e a característica é neutralizar e não propor ou protagonizar. Minha ideia é muito mais pensar na trave do adversário do que na minha. Quero impulsionar minha ideia em um clube que me abala pela história, com Pelé e Neymar, que nos obriga a jogar desta maneira – disse Sampaoli.

– Mais do que Europa ou Ásia, estou no lugar onde é o ápice do futebol também. Onde saem os melhores jogadores que se exportam. Temos que potencializar o talento daqui, é um desafio. Recebi muitas propostas depois de LA U, São Paulo, Cruzeiro, Flamengo, Santos… Agora era o momento. Agora estou obrigado estar à altura por causa do carinho que recebi – completou o treinador, sem especificar em que momento foi procurado por esses outros clubes.

Questionado sobre quem foi melhor, Pelé ou Maradona, o treinador argentino sorriu e se esquivou:

– São diferentes etapas, muito difícil de comparar. Me parece incrível estar no mesmo clube onde Pelé se destacou.

Sampaoli se disse surpreso com o carinho dos torcedores do Santos.

– O motivo principal foi a característica do paladar do torcedor do Santos com minha maneira de jogar. Esse pacto generalizado, intrínseco desde que eu desci do avião é como pisar num lugar que te recebe com muita expectativa. Eu, como profissional, estou obrigado a responder essa expectativa. O aspecto emocional me faz estar aqui.

A apresentação foi feita pelo presidente José Carlos Peres. Ele classificou Sampaoli como “um operário” e pediu “apoio da mídia”.

– Hoje é um marco não só para o Santos como para o futebol brasileiro. A palavra de ordem é inovar. O futebol precisa de mudanças, ideias novas, pessoas que podem acrescentar nesse cenário e na busca por avanços.

Na sequência, Peres chamou o presidente da Federação Paulista de Futebol, Reinaldo Carneiro Bastos, para fazer a entrega simbólica da camisa do Santos a Sampaoli.

Perfil e adaptação

Sampaoli tem os braços cobertos por tatuagens que fazem alusão a bandas argentinas de rock. Muitos garantem que esse hábito foi adquirido durante sua passagem pela seleção do Chile, entre 2012 e 2016, e a influência para essa transformação foi Arturo Vidal e todas suas tatuagens.

O Brasil será o sexto país diferente em sua carreira como treinador. Antes, trabalhou no Peru (Juan Aurich, Sport Boys, Coronel Bolognesi e Sporting Cristal), Equador (Emelec), Chile (O’Higgins, Universidad de Chile e seleção do Chile) e Espanha (Sevilla), além, claro, da Argentina, seu país natal.

Sampaoli minimizou a questão do calendário do futebol brasileiro, que tem mais jogos do que nesses outros países.

– Na Espanha, jogávamos normalmente quarta e domingo, domingo e quarta. É um tema de conscientizar os jogadores para se divertirem em campo. Quanto mais joguem, melhor a equipe vai render.

Jorge Sampaoli até tentou ser jogador, mas sua carreira foi interrompida aos 19 anos, antes que ele tivesse conseguido jogar profissionalmente. O técnico que o Santos acaba de contratar talvez seja o herdeiro mais fiel ao estilo de Marcelo Bielsa, ex-técnico das seleções argentina e chilena, hoje à frente do Leeds United, da segunda divisão da Inglaterra.

Depois de vagar por times do Peru e do Equador, Sampaoli foi contratado pela Universidad de Chile em 2010. Ganhou o tricampeonato chileno e levou o clube ao primeiro título internacional da história – a Sul-Americana de 2011. O sucesso o levou naturalmente a suceder Bielsa na seleção do Chile, onde ele superou o mentor ao ganhar a Copa América de 2015.

O treinador é conhecido por ser um obsessivo dos detalhes. Correr riscos não é um problema para o técnico argentino: seus times jogam num ritmo frenético, sempre mais focados em fazer gols do que preocupados em não sofrê-los.

– Avalio vários sistemas táticos. Podemos ter tipos de variação que o jogador absorva sem tirar seu protagonismo ou seu talento – disse Sampaoli.

Sampaoli trabalhou nas duas últimas Copas do Mundo. Em 2014 estava no banco de reservas do Chile, que quase eliminou a seleção brasileira nas oitavas de final – perdeu por pênaltis. Aquela seleção tinha o melhor de Sampaoli: organização, marcação sufocante, trocas vertiginosas de passes. A Copa de 2018, à frente da Argentina, viu o pior: mudanças seguidas na escalação e no esquema tático, que resultaram num time bagunçado. Mesmo com Messi, a seleção argentina não passou das oitavas de final.

– Tudo vai estar vinculado com a bola. Muitos não querem a bola. Vamos tratá-la como a maior coisa para defender e atacar – disse Sampaoli.

– O que me resta como treinador é ganhar – resumiu, sobre a cobrança por resultados.

Próximos passos

Sampaoli descerá a Serra do Mar ainda nesta terça-feira para conhecer a estrutura do Santos (CT Rei Pelé e Vila Belmiro). Ele retorna à Argentina na manhã de quarta-feira para resolver os últimos detalhes de sua mudança para o Brasil – a tendência é de que o treinador só se reapresente no dia 2 de janeiro junto com o restante do elenco e participe de discussões sobre reforços e elenco à distância.

O fiasco com a seleção da Argentina na Copa

Sampaoli demonstrou incômodo ao ser questionado sobre a campanha da seleção da Argentina na última Copa do Mundo. A equipe de Messi foi eliminada nas oitavas de final pela França, após primeira fase ruim.

–Sobre a Argentina, era difícil, momento complicado. Sabia como era, mas era minha oportunidade de ir para meu país. Saí do Sevilla, não fui bem em curto prazo e agora só penso no Santos. Não é Chile, Sevilla ou Argentina, é o Santos – disse Sampaoli, ao ser questionado sobre a passagem pela seleção argentina.

– A grande alegria dura pouco, e a dor dura muito. A dor de não ganhar a Copa do Mundo é muito especial para mim – completou.

Análise do elenco

Sampaoli, aliás, é o terceiro “reforço de Copa” contratado pelo Santos. Os dois primeiros foram o uruguaio Carlos Sánchez (34 anos) e o costarriquenho Bryan Ruiz (33). São dois dos mais experientes do elenco santista. Os primeiros jogadores destacados por Sampaoli, porém, foram Bruno Henrique e Rodrygo. Segundo ele, ambos têm “grande capacidade”.

– Estamos trabalhando duro para fazer a melhor equipe possível – disse o treinador, sobre lista de reforços.

– Antes de vir pra cá, eu me reuní com pessoas da minha comissão técnica para termos um panorama antes da negociação ser concretizada. Fizemos uma reunião com Renato, o presidente, gente do clube e tratamos de mostrar uma primeira análise com as posições necessárias através de um perfil de de jogadores que a equipe precisará. Estamos buscando alguns, mas não podemos dar nomes – completou o treinador.

Sobre os laterais Dodô, em fim de contrato, e Victor Ferraz, na mira do São Paulo, Sampaoli disse:

– Sobre Dodô, falei com o presidente e ainda não tive oportunidade de falar com o jogador. Falarei antes de voltar. Ele é importante, quero que continue. Ferraz é o capitão, vamos precisar dele e vamos tentar convencê-lo a ficar.

– Para o Rodrygo, creio que para a carreira dele é importante que ele se consolide mais por aqui, para o bem dele e o meu – brincou Sampaoli, sobre o jogador já negociado com o Real Madrid.

Sampaoli foi questionado também se pode indicar a volta de Paulo Henrique Ganso ao Santos. Eles trabalharam juntos no Sevilla, em 2016.

– Fomos parceiros no Sevilla. Tem uma qualidade incrível, mas não se consolidou na Europa. Temos que analisar com o presidente as prioridades – disse o técnico.

Sampaoli afirmou que vai trabalhar com jovens formados no clube.

Jorge Sampaoli é apresentado no Santos — Foto: Ivan Storti / divulgação Santos FC

– A base é fundamental, os jovens sem medo independentemente da idade, com compromisso e capacidade de adiantar o processo de formação. Trabalhamos com um grupo de sparring junto com o plantel principal, desde 14 anos. Com os melhores de cada categoria, podemos vê-los todo dia contra a primeira equipe. O sparring em todos os lugares que tivemos acabou sendo a base do time no futuro – disse o treinador, que falou especificamente sobre o centroavante Yuri Alberto.

– Yuri Alberto é um jogador que para nós tem um potencial. Temos de analisar dentro de campo. É importante que cada jogador que chegue tenha características compatíveis com os jogadores que já estão no elenco.

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